Acompanhe as atividades do IRELGOV nas redes sociais:

Edição nº 3 - ANO 2
Dezembro de 2015

EDITORIAL
Planejamento IRELGOV 2016.
NOTÍCIAS
IRELGOV inicia atividades em Brasília com Rodada de Debates com lideranças políticas – PTB é o primeiro convidado.
NOTAS
ARTIGO
Quem é o Profissional de Relações Governamentais?
ARTIGO
RELAÇÕES GOVERNAMENTAIS NOS MUNICÍPIOS: O caso do serviço de transporte individual remunerado

EDITORIAL

O trabalho do Instituto de Relações Governamentais – IRELGOV, foi bastante intenso ao longo dos últimos seis meses.

Com satisfação, comunicamos que demos início aos eventos do IRELGOV em Brasília. O objetivo é promover uma série de debates sobre o tema Liderança Política e Participação do Setor Privado em Momentos de Crise. No primeiro deles, conversamos com a Deputada Federal Cristiane Brasil, Presidente Nacional do PTB. Cerca de 30 profissionais e estudantes estiveram presentes.

Trabalhamos também no planejamento do IRELGOV para 2016. As reuniões envolveram mais de 20 profissionais no desenvolvimento de ações e projetos relevantes para o próximo ano. Alguns desses projetos já estão em andamento.

Um deles é a Pesquisa de Reputação, um dos pilares do IRELGOV, realizada por meio de uma parceria com a Fundamento RP, que visa mensurar o nível de conhecimento sobre (i) o trabalho do profissional de relações governamentais, e (ii) a relevância de sua atuação junto a três públicos diferentes com os quais se relaciona diretamente: dentro de seu ambiente corporativo – junto aos seus pares; entre outros profissionais de relações governamentais e na perspectiva dos agentes públicos de Governo.

A pesquisa será realizada em 3 fases, com um público por semestre, a começar pelo ambiente corporativo. Nessa primeira fase, a pesquisa ouvirá CEOs e executivos c-levels de grandes e médias empresas que atuam no Brasil. A estimativa é obter uma média de 100 respondentes.

O lançamento dos resultados da primeira fase está previsto para acontecer no primeiro trimestre de 2016, na sede do IEL/CNI, em SP. As duas fases seguintes – pares e governo – serão realizadas em 2016 e seus resultados serão apresentados ao final do próximo ano.

As entrevistas da primeira fase já estão em pleno vapor. Caso sua empresa ainda não tenha sido contatada pela Fundamento, pedimos que entre em contato conosco pelos e-mails: irelgov@irelgov.com.br e equipeirelgov@fundamento.com.br, para que possamos incluí-los nesta profunda análise a respeito da reputação de nossa profissão. Acreditamos que, a partir das conclusões da pesquisa, identificaremos formas de contribuir para a desmistificação e valorização da profissão de Relações Governamentais no Brasil.

Outros projetos em andamento e previstos para acontecer em 2016 são: a recepção de um aluno voluntário da Universidade de Harvard no Brasil durante os meses de junho e julho do próximo ano; a Jornada Técnica do IRELGOV para Bruxelas; e a redação do Guia de Melhores Práticas de Relações Governamentais. Os interessados em participar mais ativamente desses projetos devem entrar em contato com Márcia pelo e-mail irelgov@irelgov.com.br.

Ainda para 2016, continuaremos com as atividades regulares do IRELGOV em São Paulo e Brasília: debates e palestras com convidados especiais; parcerias com entidades de ensino; promoção e apoio do IRELGOV à participação de seus associados em palestras e projetos específicos; além das reuniões dos Comitês internos do Instituto (Jurídico, de Reputação, Educação e Associações).


Participe. Venha somar ao Instituto.

Conselho IRELGOV

EXPEDIENTE #03
ANO 2 - DEZEMBRO DE 2015

NEWSLetter é uma publicação do Instituto de Relações Governamentais.
Rua Tenerife, 31 - bloco A – 4º andar - S17
Vila Olímpia – São Paulo – SP
CEP: 04548-040 | Fone: +55 11 3847 8923
E-mail: irelgov@irelgov.com.br

Guilherme Athia

Kelly Aguilar

Cinthia Battilani

Larissa Wachholz

Silene Moneta

Valeria Café

Viviane Vieira

Criação e Editoração:
Percepção Comunicação Empresarial

IRELGOV INICIA ATIVIDADES EM BRASÍLIA COM RODADA DE DEBATES COM LIDERANÇAS POLÍTICAS – PTB É O PRIMEIRO CONVIDADO

Com a proposta de trazer os líderes dos principais partidos políticos brasileiros para uma rodada de discussões sobre o tema: Liderança Política e Participação do Setor Privado em Momentos de Crise, o IRELGOV deu início às suas atividades em Brasília. No primeiro evento da série, conversamos com a Deputada Federal Cristiane Brasil, Presidente Nacional do PTB, no último dia 20 de outubro, no novo prédio da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A Deputada apresentou, inicialmente, um breve histórico de seu envolvimento com a política brasileira: advogada, enquanto se preparava para um concurso para juíza, foi convidada a liderar a Secretaria do Idoso no município do Rio de Janeiro. O envolvimento com o tema dos idosos foi intenso e, forma até hoje, a base eleitoral da parlamentar e a sustentação de sua carreira política. Filha de Roberto Jefferson, antigo líder do PTB, Cristiane Brasil foi posteriormente convidada pelo partido a assumir sua presidência.

A Deputada manifestou seu desacordo com o modelo econômico defendido pela Presidente Dilma Rousseff, uma das principais razões de sua oposição ao atual governo e de seu apoio à candidatura do Senador Aécio Neves à Presidência em 2014. Descrevendo sua atuação na Câmara dos Deputados, Cristiane mencionou participação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), bem como na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o BNDES, onde é responsável por analisar os contratos internacionais.


Sobre a regulamentação do lobby

A Deputada é atualmente a relatora do projeto de lei 1202/2007, do Deputado Federal Carlos Zarattini, sobre a regulamentação do lobby no Brasil. Ainda que não seja pauta de trabalho do IRELGOV, este é dos um assuntos que naturalmente preocupa os associados do Instituto. A Deputada disse ter estudado modelos existentes de regulamentação, dentre eles, o norte-americano, e manifestou dúvidas quanto à sua aplicabilidade e eficácia. Falou também sobre a necessidade de se deixar claro o que é ou não permitido no exercício dessa atividade profissional, que enxerga como de grande relevância para a sociedade – ainda que, de seu ponto de vista, a sociedade brasileira tenha pouco interesse pelo teor das negociações envolvendo entes públicos e privados, dedicando maior atenção aos temas com contorno social ligados à saúde, educação e segurança.

Ressaltando o recente e positivo aumento do interesse da imprensa pela discussão do tema do lobby no Brasil, a Deputada falou sobre a necessidade de se trabalhar junto a jornalistas no esclarecimento de como se dá a atuação do profissional de relações governamentais no país. Segundo ela, a imprensa, se mal informada, contribui para a “demonização” da atividade.

Quanto à regulamentação da profissão, a Deputada considera que questões vitais para o Brasil precisam ser discutidas em conjunto com a sociedade e com aqueles que serão afetados por tais decisões. Por esta razão, é favorável ao estabelecimento de regras claras, que propiciem segurança jurídica e transparência às relações entre o setor público e às pessoas que fazem relações governamentais. Afirma estar ainda em busca de um modelo adequado que regule essa atividade sem causar a sua inviabilização.


Sobre a atuação do profissional de relações governamentais

A Deputada mencionou sobre a importância da transparência absoluta no trabalho do profissional de relações governamentais que, a seu ver, deve ter sempre em mente a lógica de que o “parecer” é tão importante quanto o “ser”. Por isso, recomenda que “a melhor forma de evitar acusações injustas a respeito de um trabalho de um interlocutor governamental é divulgar cada conversa mantida com uma autoridade e, se possível publicar as atas de reunião”.


Sobre liderança política e a participação do setor privado em momentos de crise

Além da crise econômica, o Brasil passa por uma importante crise política originada por acusações de corrupção. A Deputada avalia que uma das implicações mais importantes do atual momento de crise é a quebra do status quo tolerante com relações escusas entre governo e sociedade, que vigorou na política brasileira por muito tempo.

A preocupação com a criação de pautas positivas para o Brasil faz parte da agenda da Deputada. Dentre suas propostas de ação para o início de 2016 estão promover uma discussão entre sociedade civil, empresários e autoridades sobre formas de ajudar o país a superar o atual momento de crise, de forma a mobilizar os diferentes partidos políticos por meio da criação de um think tank suprapartidário focado na busca de soluções para as questões brasileiras.

Ao concluir sua fala, a Deputada lembrou que o Brasil é uma democracia nova, que ainda está construindo seu marco institucional e aprendendo a funcionar.

NOTAS

Participe da Assembleia Geral Ordinária do IRELGOV no dia 18 de dezembro

Dia 18 de dezembro, a partir das 8h30 da manhã, no escritório da Demarest Advogados, será realizada a assembleia geral ordinária e reunião de resultados 2015 / planejamento 2016 do IRELGOV. Na ocasião, teremos a presença de Guilherme Athia, presidente do Conselho Deliberativo do IRELGOV e Diretor Sênior de Relações Governamentais da NIKE para Europa.

Tendências: saiba o que foi debatido no evento:

“Relações Governamentais na Era Digital” e na palestra de Stephanie Vance baseada em seu livro “The Influence Game”


No último dia 17 de novembro, a BITES, em parceria com a FGV, realizou o evento Relações Governamentais na Era Digital. Com apoio institucional do IRELGOV, o evento permitiu entender como o setor de relações governamentais pode fazer frente às novas tecnologias.

O evento começou com a participação do cientista político Fernando Abrucio, da FGV, que pontuou que, em redes sociais há uma tendência ao debate "rasteiro e dualista". Em seguida, Kellyton Brito, professor da UFRPE e doutorando na UFPE, explicou como é possível processar informações disponíveis na internet, como as atividades dos ministros, senadores, deputados, governadores e prefeitos de todo o país. Esses dados são riquíssimos para, como cidadãos, podermos gerenciar a rotina, gastos e projetos de nossos eleitos. A discussão seguiu para a importância da qualificação desses dados por meio de acadêmicos, estudiosos e imprensa. Luiz Fernando Bovo, do Estadão, falou sobre o impacto das redes sociais na imprensa brasileira e internacional que, segundo ele, têm as mesmas dificuldades em monetizar e usar as ferramentas digitais e dados abertos do que os veículos impressos de outros países.

A Bites apresentou um estudo sobre os novos fluxos de influenciadores nas redes sociais, análises qualitativas sobre a capacidade do Planalto, Senado e Câmara em influenciar comunidades, explicou sobre a importância de entender os repertórios coletivos e grupos de ativistas nas redes sociais, além de detalhar os assuntos que estão mais em voga nos últimos meses. Para encerrar, Daniel Mangabeira, da Uber, apresentou a estratégia de relações governamentais da empresa e mostrou como uma companhia de tecnologia, nascida na era digital, depende desses meios para ter sucesso na representação de seus negócios perante o Poder Público e a sociedade.

Já, Stephanie Vance, em evento promovido pelo IEL no último dia 23 de novembro, falou sobre a importância de saber influenciar de acordo com princípios éticos.

Stephanie foi muito clara sobre a diferença entre influência (em que todos ganham) e manipulação(onde somente alguns ganham em detrimento de outros) e apresentou uma série de dicas de negociação para que uma organização consiga influenciar (no bom sentido) uma pessoa ou um grupo de pessoas.

Essas dicas/sugestões vão desde:

  • “ser apaixonado” pela causa que está sendo defendida;
  • entender a causa e como ela pode ser positiva para todos os envolvidos;
  • transformar essa causa em algo que traga a atenção do seu público de interesse;
  • dividir projetos de longo prazo em pequenos projetos de curto prazo;
  • desenvolver muito bem suas mensagens de forma a transformá-las em mensagens específicas, mensuráveis, atingíveis, realistas e oportunas;
  • compreender as regras do jogo de forma a estar preparado para os próximos passos;
  • analisar quem pode dar-lhe a informação necessária e correta;
  • entender se a decisão está sendo tomada no âmbito correto;
  • saber quem está envolvido no projeto que se está trabalhando;
  • categorizar seu(s) público(s) de interesse e entender o assunto que move esse(s) público(s) de interesse;
  • estudar quais são os influenciadores de seu público de interesse;
  • descobrir quais são os recursos e as ferramentas existentes para a defesa de seu projeto, de forma a criar uma estratégia de acordo com esses recursos e utilizar ferramentas para sua implantação;
  • encontrar um parceiro com objetivos semelhantes para alavancar a defesa de seu projeto;
  • garantir o comprometimento de todos;
  • definir o que pode ou não ser trocado durante o processo de negociação;
  • minimizar riscos;
  • analisar seus opositores e comunicar por meio de ferramentas eficazes.

Stephanie finalizou a apresentação dizendo que o sucesso não está na assinatura de um contrato, mas na implantação e nos resultados obtidos após a assinatura deste contrato. Essas e outras táticas estão descritas em seu livro: “The Influence Game”, da editora Wiley.

Veja o site do IRELGOV e acompanhe nossas redes sociais para saber sobre os cursos e projetos do Instituto e de nossos parceiros.

Além da parceria com o Insper e a Fundamento, o IRELGOV vem estreitando relações com o IEL/CNI, a Fiergs, o escritório da Universidade de Harvard na América Latina e outras organizações que realizam alguns projetos e debates específicos. Por conta disso, temos conseguido descontos especiais e convites em eventos exclusivos para nossos associados. Confira em nosso site.

Acompanhe as redes sociais Facebook, Twitter e LinkedIn do IRELGOV e compartilhe com seus colegas de trabalho. Muitas novidades são divulgadas semanalmente em nossas fanpages, tais como cursos, eventos, artigos e sugestões de livros. Caso queira sugerir a inclusão de alguma informação relevante, queremos ouvir sua opinião e sugestão. Participe.

ARTIGOS:

QUEM É O PROFISSIONAL DE
RELAÇÕES GOVERNAMENTAIS?

Vivemos um período no qual as palavras “lobby” e “lobista” têm aparecido com uma frequência cada vez maior, sendo estigmatizadas e associadas a práticas inadequadas de promoção e defesa de interesses. Diariamente nos deparamos com novas denúncias que quase “amortecem” o senso crítico nacional.

Não é apenas no Brasil que o lobby é confundido com corrupção. A palavra tem um sentido pejorativo em nosso país e discute-se no meio de relações governamentais a ideia de deixar-se o termo lobby para quem defende interesses sem ética, abandonando o termo para os profissionais e empresas do setor que atuam e prezam pelas boas práticas. Nos Estados Unidos, Canadá e União Europeia, onde a profissão já está regulamentada, os profissionais identificam-se claramente como lobistas e atuam de forma transparente e controlada pelos governos. Até que cheguemos nesta etapa no Brasil, talvez seja mesmo prudente evitar o termo para que os bons profissionais atuem.

Dentro deste cenário, torna-se fundamental projetar uma luz de forma a esclarecer a legítima e importante prática do advocacy, realizado por empresas, instituições e governos, mediante a atuação de profissionais da área de relações governamentais, relações institucionais ou assuntos corporativos (cabe esclarecer que as denominações variam bastante nas diferentes organizações).

É inegável a necessidade de interlocução entre as empresas ou instituições com os governos, nas esferas municipais, estaduais e nacional. Os motivos da interlocução podem ser os mais diversos: empresas que detém concessão de serviços públicos; fornecedoras para compras governamentais; empresas inovadoras que precisam levar ao governo informações geradas por suas áreas de pesquisa e desenvolvimento, de forma a realizar registros específicos; empresas com produtos registrados ou controlados pelas agências governamentais ou que comercializam produtos potencialmente polêmicos. Esses são alguns dos segmentos que hoje entendem a importância da relação institucional como prática estratégica imprescindível. Além deles, as entidades (federações, associações, sindicatos) que representam os mais diversos setores da economia, precisam levar seus pleitos e demandas coletivas aos governos, colaborando na construção da agenda governamental e na formulação de políticas públicas que visem o desenvolvimento nacional.

O bom profissional de relações governamentais apresenta algumas características marcantes e que o qualificam para o sucesso profissional:

  • Prima pelas habilidades de comunicação, persuasão, diálogo e negociação. É objetivo, conciso, claro, prudente e persistente;

  • Sabe preparar suas mensagens e constrói argumentos sólidos que serão direcionados a cada tipo de interlocutor, que já foi previamente mapeado e avaliado;

  • Estabelece e mantém relacionamentos positivos, circulando em ambientes diversos, quer sejam eles políticos, institucionais ou empresariais. Compreende a importância do networking sistemático para o sucesso de sua atividade. É capaz de criar e manter relacionamentos profissionais e sabe da importância da boa apresentação, tanto física quanto oral e escrita;

  • Analisa e prevê cenários, percebendo os diferentes pontos de vista sobre cada questão;

  • Constrói alianças estratégicas, forma coalizões e trabalha com o sigilo necessário em assuntos altamente estratégicos;

  • É bem informado, pois consome informação em várias mídias, antecipando tendências, sendo um “especialista em generalidades”. Isto, porém, é complementado pela profunda compreensão e estudo dos assuntos que defende, sabendo também avaliar e responder as posições contrárias aos seus pleitos;

  • Atua estrategicamente, reconhecendo o momento de avançar, recuar ou alterar alianças em prol dos objetivos de negociação;

  • Atua de forma clara e transparente.

Além de tudo isto, precisa controlar o seu ego e ser humilde, sabendo manter o sigilo necessário e reconhecendo que o mérito e reconhecimento de seu trabalho muitas vezes não serão públicos, pois boa parte das conquistas de influência devem pertencer a um grupo maior de beneficiados.

O ponto chave defendido aqui é a atuação do profissional de relações governamentais, pautada pela ética e integridade, comportamentos que devem estar presentes em todas as interações, seja no ambiente interno de sua organização ou na interlocução externa, com quaisquer stakeholders. O bom profissional ama a legalidade e respeita a legitimidade. Atua de forma proba, não suborna, não compra decisões nem opiniões. Certamente, dorme tranquilo.

Com o advento da Lei Anticorrupção brasileira, e de outras regras internacionais antecedentes, temos visto cada vez mais programas organizacionais de ética, integridade e compliance. Porém, não é demais ressaltar que nenhum programa empresarial de compliance é mais impactante que o comportamento inerente ao ser humano que atua como profissional de relações governamentais. Certamente o principal programa de integridade do planeta palpita dentro do peito do profissional de relações governamentais. É este programa interno, esta bússola moral, que o conduzirá para tomar a decisão estratégica mais correta para avançar na promoção e defesa de interesses na qual está engajado, sem incorrer em práticas indevidas.

Na maioria das vezes será mais sábio recuar um passo para avançar posteriormente. Em outras, será necessário formar uma coalizão maior, onde várias organizações defenderão direitos mais difusos. Talvez será preciso buscar outros interlocutores que permitam o avanço da pauta em abordagens distintas, ainda dentro da atuação ética. É nestes momentos cruciais que o bom profissional de relações governamentais se distinguirá de seu antagônico. E este é um dos desafios mais prazerosos desta profissão.

Vale ressaltar que, talvez, a atuação desprovida de ética atinja os “resultados” almejados de forma mais rápida do que a atuação íntegra. Em algumas situações, é possível que esta pareça ser a solução mais fácil, ou mesmo pode haver uma pressão dos interlocutores ou mesmo da organização para engajamento em atividades ilegais.

Porém, o preço reputacional e moral a ser pago, tanto da organização quanto do profissional, será alto demais, e não compensará a eventual celeridade dos resultados obtidos.

Ter a clareza de seus limites morais, compreender o que deve ou não ser realizado é, talvez, um dos pontos centrais da atuação do bom profissional de relações governamentais, mesmo se com isso, ele vier a perder, eventualmente, seu emprego ou um negócio para seguir atuando de forma ética. Relação governamental é um exercício inteligente de persuasão, habilidade e convicção. É preciso utilizar suas melhores armas e negociar suas razões de forma convincente e íntegra.

Recentemente, até Sua Santidade, o Dalai-Lama, um dos principais líderes religiosos do mundo, afirmou que “a ética é mais importante que a religião”. Certamente, no que tange à atuação do profissional de relações governamentais, podemos ampliar esta definição afirmando que a “ética é mais importante que os resultados rápidos atingidos quando ela é esquecida”.

Três projetos de lei tramitam há anos no Congresso Nacional visando a melhor forma de regulamentar a profissão. Até que haja regras claras a serem seguidas pelos profissionais, talvez tenhamos de continuar navegando nestes mares incertos. Talvez a regulamentação traga uma via legítima e regulada para o relacionamento entre empresas, instituições e governos. As boas práticas de relações governamentais são aquelas que conduzirão nossa jovem democracia a um maior grau de maturidade e desenvolvimento. Temos, em nosso país, cada vez mais bons profissionais de relações governamentais, condizentes com o perfil apresentado neste artigo, atuando de forma ética e íntegra, colaborando para este amadurecimento.


Sobre a autora: Andréa Veríssimo
Profissional com dez anos de experiência em Relações Governamentais, tendo atuado em empresas multinacionais como Elanco Saúde Animal e BASF Agro nas áreas de assuntos públicos, corporativos e relações governamentais do agronegócio (nos segmentos de biotecnologia, defensivos agrícolas e insumos pecuários). Em atuação institucional, geriu o programa internacional de promoção comercial da carne bovina brasileira na ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne) junto à APEX Brasil (Agência do MDIC), no período em que o Brasil se tornou o maior exportador de carne bovina do mundo. Além disto, foi Vice-Presidente Executiva e Presidente do SIC - Serviço de Informação da Carne. Gestora da área de Assuntos Estratégicos da Presidência da FIERGS - Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul desde 2013. Médica Veterinária com Pós-Graduação e Mestrado em Farm Management na Lincoln University na Nova Zelândia.


RELAÇÕES GOVERNAMENTAIS NOS MUNICÍPIOS:

O CASO DO SERVIÇO DE TRANSPORTE INDIVIDUAL REMUNERADO

Engajar-se com o poder público municipal para debater políticas públicas não é uma tarefa fácil no Brasil, seja porque é um país de dimensão continental ou porque cada um dos atuais 5.570 municípios possui uma dinâmica própria de organização e funcionamento. Porém, em certos casos, o engajamento municipal é parte essencial da estratégia de relações governamentais. Como, por exemplo, na calorosa discussão em torno da regulamentação do serviço de transporte individual remunerado (isto é, táxi e seus arremedos), na qual estou envolvido.

Em se tratando de um tema local que afeta o dia a dia das pessoas, a primeira e, talvez, mais importante constatação é a alta probabilidade de o debate extrapolar o fórum técnico e político dos órgãos municipais e envolver a opinião pública. E foi este exatamente o caso do serviço de táxi, onde há meses estamos assistindo a diferentes manifestações públicas das partes diretamente envolvidas e de diversos formadores de opinião, desde juristas até comediantes, que se expressam tanto na mídia tradicional como nas ruas; além das inúmeras manifestações de cidadãos comuns nas mídias sociais. E uma empresa que atua neste setor não poderia se ausentar do debate público, devendo desenhar uma estratégia de public affairs, de forma a ampliar os horizontes de atuação no que normalmente chamamos de relações governamentais.

Em casos onde existe uma pluralidade de questões e stakeholders envolvidos, faz-se necessário que a estratégia de public affairs inclua um detalhado mapeamento e gerenciamento de stakeholders, cuja importância foi bem explorada na última newsletter pela Grazielle Parenti.

Por isso, é essencial que haja uma estreita coordenação das ações de relações governamentais, comunicação com a mídia, relacionamento com grupos sociais e posicionamento jurídico. Por exemplo, uma prefeitura só deu a devida importância a um argumento sobre regulamentação de táxi após escutar um grupo social de maior representatividade, que já tinha sido ecoado por um parecer jurídico e que, por sua vez, gerou um intenso debate na mídia. Saber coordenar essas ações e costurar coerentemente as mensagens dos diferentes interlocutores é um importante diferencial para um profissional de relações governamentais.

Em um país onde o Estado é muito presente, independentemente do tema pertencer ao âmbito federal, estadual ou municipal, há uma tendência natural dos entes privados se unirem em coalisões ou associações empresariais para se contrapor com maior legitimidade ao intervencionismo estatal. No entanto, como estamos falando do surgimento de um “novo” modelo de negócios que instigou a necessidade de se rever a política pública aplicada à prestação do serviço de táxi, é inevitável que o desfecho do debate afete de forma significativamente os entes privados que estão competindo neste mercado.

Diante deste fato, municiar-se de inteligência competitiva, coletando e analisando informações relativas às intenções e estratégias adotadas pelos concorrentes, contribui em muito para a eficácia da estratégia de public affairs.

Outro aspecto comum em temas municipais no âmbito do federalismo brasileiro é a indefinição em relação à competência do município para legislar sobre determinado assunto. No caso do serviço de transporte municipal, há quase que um consenso que a Constituição Federal estabelece a competência complementar pela qual o governo federal determina as diretrizes e os municípios a regulamentação e autorização. Porém, os limites da competência de cada esfera governamental, bem como os limites da regulamentação perante os outros ditames da Constituição não gozam do mesmo consenso. Consequentemente, há hoje discussões legislativas simultaneamente no Congresso Nacional e nas Câmaras Municipais, assim como contendas nos tribunais. Isto exige que a implantação da estratégia de public affairs seja coordenada em mais duas frentes de “batalha” além dos municípios. Deve-se estar atento ao timing de cada tramitação legislativa e decisão judicial e levar em consideração a dinâmica entre todas – por exemplo, alguns deputados federais e senadores são potenciais candidatos a prefeito na próxima eleição.

Se um mesmo profissional ou equipe de relações governamentais estiver atuando simultaneamente em muitos municípios, há três cuidados imprescindíveis com a gestão do tema: organização, priorização e comunicação.

Sem organização há alto risco de perda de oportunidades e queda na qualidade dos engajamentos, uma vez que são muitos. Já, a priorização, maximiza o uso dos recursos e aumenta a eficácia das ações. Enquanto a comunicação interna minimiza o risco de deslize na execução de tarefas praticamente simultâneas e, ao mesmo tempo, permite que experiências positivas de um município sejam mais rapidamente conhecidas pelas autoridades competentes de outro município.

Cuidar pró-ativamente dos interesses da empresa em nível municipal é um desafio que pode e deve ser enfrentado. E o caso do serviço de transporte individual é um bom exemplo de que a interação mais próxima e intensa com o poder público local tende a ser uma experiência enriquecedora, que enseja o uso de múltiplas expertises pelo profissional da área de relações governamentais.


Sobre a autor: Alberto Bueno
É sócio fundador da Concordia Public Affairs Strategies desde junho de 2014. Ele possui mais de 15 anos de experiência trabalhando com relações governamentais, campanhas políticas e consultoria estratégica. Antes de fundar a Concordia, Alberto foi sócio-diretor da Prospectiva (consultoria focada em estudos de políticas públicas), assessor especial de Guilherme Leal (candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva) na campanha presidencial de 2010, especialista em comércio internacional na Organização Mundial do Comércio (OMC) em Genebra, e consultor da McKinsey em São Paulo. Ele é bacharel em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Mestre em Economia Internacional pela London School of Economics (LSE).


Acompanhe os demais artigos e novidades no site: www.irelgov.com.br
e também nas redes sociais: